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                 Ano I I I Edição n.º 870   Quarta-feira,  14 de Setembro de 2005

 

A redemocratização da América latina e a integração regional

Em fins dos anos 80, a economia internacional enfrentava uma guinada liberal já amadurecida desde a década de 70. No Brasil esta guinada só se dará muito mais tarde. Neste período, o Estado actuante de forma corporativista enfrentava uma grave crise de hegemonia: baseado no controle e autoridade estatal, o desenvolvimentismo que se produzia por empuxo governamental já não conseguia se reproduzir diante do novo cenário internacional e da incapacidade do governo de continuar conduzindo o processo produtivo. Na medida em que o estado com viés corporativista de debatia em sua agonia final, a ideologia liberal tomava fôlego, sustentada pelo novo movimento internacionalista que tomava o mundo. O relativo estado de isolamento político e económico a que o país estava submetido pelo regime autoritário pós-1964 permitiu que se pudesse remar contra a maré durante muitos anos, até que o declínio inexorável do corporativismo minasse toda sua base de sustentação.

O nacionalismo latino-americano pereceu vítima da crise da dívida na década de 70. A quebra dos Estados não permitia mais aos regimes estabelecidos nestes países afirmarem que suas nações poderiam prescindir do resto do mundo. “Se você não tem dinheiro para pagar o banqueiro, não está em condições de dizer que sua nação é a melhor do mundo”, dizia o historiador norte-americano Thomas Skidmore. Sem esta amarra isolacionista, as elites económicas puderam agir com maior liberdade de movimento.

Nos últimos momentos do estado desenvolvimentista, a autoridade estatal já em declínio não permitia mais o recurso a planos económicos pouco ortodoxos para a recuperação da economia. Até que os governantes se dessem conta disso, muitas aventuras foram tentadas, visando dominar a inflação praticamente à força, com estratégias que variaram de congelamento de preços até o confisco temporário do dinheiro depositado em bancos. Poder-se-ia dizer que o governo Fernando Henrique Cardoso, surge como uma forma de dizer um adeus definitivo à Era iniciada pelo Presidente Getúlio Vargas, dando corpo às ideias liberais que se estabeleciam entre a burguesia nacional. No período imediatamente anterior a Fernando Henrique, quando surge o Mercosul, o cenário de transição era desolador para a economia brasileira, com a crise da dívida externa e a inflação galopante tirando o sono do empresariado. Os anos de isolamento político e económico minaram a capacidade de competitividade da indústria nacional, o que gerava outra situação paradoxal: a burguesia desejava a abertura política e económica, mas a ideologia liberal ainda não estava totalmente consolidada, nem eles estavam preparados para a abertura econômica.

É verdade que grande parte dos eventos políticos e sócio-econômicos dos últimos anos estão intrinsecamente ligados, às ideias liberais – ou neoliberais – mas é preciso resguardar certa dose de reserva em relação ao entusiasmo que possa suscitar a adesão ao simplismo desta explicação. Num país como o Brasil, onde o sistema partidário tem a singular característica de ser pouco representativo em relação ao seu conteúdo ideológico (ou seja, o sistema partidário é frágil, permitindo uma atuação personalista dos líderes políticos), a atenção deve ser redobrada: nunca é demais lembrar o quão arriscadas são as interpretações exageradamente ideológicas ou programáticas num país cujas lideranças cultivam formas variadas de pragmatismo oportunista”, alerta o cientista político Gilson Schwartz. A despeito disto, a maioria dos analistas em política externa concordam que existe uma grande coincidência nas análises sobre o contexto político-ideológico dos processos de redemocratização da América do sul. Usualmente costuma-se estabelecer uma ligação entre estes processos e o predomínio da ideologia neoliberal, reforçando a importância de elementos externos como influenciadores do processo de integração económica. Neste cenário o Mercosul surge como um “deus ex-machina”, ainda com o Estado controlando seu processo inicial de constituição, mas fornecendo para o empresariado um colchão para a liberalização comercial. O Mercosul parecia de início muito menos assustador do que a globalização irrestrita, e servia como um excelente tubo de ensaio.

O liberalismo político-econômico nos últimos anos parece ter sido correntemente identificado com o empresariado industrial, mas não devemos nos esquecer que historicamente, o liberalismo é uma demanda de importantes segmentos de proprietários de terras. Não é por acaso que a sustentação política do governo que destruiu os vestígios do corporativismo estatal brasileiro estava ostensivamente baseada nas elites políticas ligadas ao ruralismo.

Na medida em que ele servia aos objetivos dos liberais surgentes e dos antigos corporativistas, visto que era uma iniciativa há muito desejada pelo Estado, não houve restrições políticas quanto à sua constituição. A virtual ausência de oposição se deve, portanto, ao fato de que ele servia ao interesse de gregos e troianos.