A
redemocratização
da América
latina e a
integração
regional
Em fins dos anos
80, a economia
internacional
enfrentava uma
guinada liberal
já amadurecida
desde a década
de 70. No Brasil
esta guinada só
se dará muito
mais tarde.
Neste período, o
Estado actuante
de forma
corporativista
enfrentava uma
grave crise de
hegemonia:
baseado no
controle e
autoridade
estatal, o
desenvolvimentismo
que se produzia
por empuxo
governamental já
não conseguia se
reproduzir
diante do novo
cenário
internacional e
da incapacidade
do governo de
continuar
conduzindo o
processo
produtivo. Na
medida em que o
estado com viés
corporativista
de debatia em
sua agonia
final, a
ideologia
liberal tomava
fôlego,
sustentada pelo
novo movimento
internacionalista
que tomava o
mundo. O
relativo estado
de isolamento
político e
económico a que
o país estava
submetido pelo
regime
autoritário
pós-1964
permitiu que se
pudesse remar
contra a maré
durante muitos
anos, até que o
declínio
inexorável do
corporativismo
minasse toda sua
base de
sustentação.
O nacionalismo
latino-americano
pereceu vítima
da crise da
dívida na década
de 70. A quebra
dos Estados não
permitia mais
aos regimes
estabelecidos
nestes países
afirmarem que
suas nações
poderiam
prescindir do
resto do mundo.
“Se você não
tem dinheiro
para pagar o
banqueiro, não
está em
condições de
dizer que sua
nação é a melhor
do mundo”,
dizia o
historiador
norte-americano
Thomas Skidmore.
Sem esta amarra
isolacionista,
as elites
económicas
puderam agir com
maior liberdade
de movimento.
Nos últimos
momentos do
estado
desenvolvimentista,
a autoridade
estatal já em
declínio não
permitia mais o
recurso a planos
económicos pouco
ortodoxos para a
recuperação da
economia. Até
que os
governantes se
dessem conta
disso, muitas
aventuras foram
tentadas,
visando dominar
a inflação
praticamente à
força, com
estratégias que
variaram de
congelamento de
preços até o
confisco
temporário do
dinheiro
depositado em
bancos.
Poder-se-ia
dizer que o
governo Fernando
Henrique
Cardoso, surge
como uma forma
de dizer um
adeus definitivo
à Era iniciada
pelo Presidente
Getúlio Vargas,
dando corpo às
ideias liberais
que se
estabeleciam
entre a
burguesia
nacional. No
período
imediatamente
anterior a
Fernando
Henrique, quando
surge o
Mercosul, o
cenário de
transição era
desolador para a
economia
brasileira, com
a crise da
dívida externa e
a inflação
galopante
tirando o sono
do empresariado.
Os anos de
isolamento
político e
económico
minaram a
capacidade de
competitividade
da indústria
nacional, o que
gerava outra
situação
paradoxal: a
burguesia
desejava a
abertura
política e
económica, mas a
ideologia
liberal ainda
não estava
totalmente
consolidada, nem
eles estavam
preparados para
a abertura
econômica.
É verdade que
grande parte dos
eventos
políticos e
sócio-econômicos
dos últimos anos
estão
intrinsecamente
ligados, às
ideias liberais
– ou neoliberais
– mas é preciso
resguardar certa
dose de reserva
em relação ao
entusiasmo que
possa suscitar a
adesão ao
simplismo desta
explicação. Num
país como o
Brasil, onde o
sistema
partidário tem a
singular
característica
de ser pouco
representativo
em relação ao
seu conteúdo
ideológico (ou
seja, o sistema
partidário é
frágil,
permitindo uma
atuação
personalista dos
líderes
políticos), a
atenção deve ser
redobrada:
nunca é demais
lembrar o quão
arriscadas são
as
interpretações
exageradamente
ideológicas ou
programáticas
num país cujas
lideranças
cultivam formas
variadas de
pragmatismo
oportunista”,
alerta o
cientista
político Gilson
Schwartz. A
despeito disto,
a maioria dos
analistas em
política externa
concordam que
existe uma
grande
coincidência nas
análises sobre o
contexto
político-ideológico
dos processos de
redemocratização
da América do
sul. Usualmente
costuma-se
estabelecer uma
ligação entre
estes processos
e o predomínio
da ideologia
neoliberal,
reforçando a
importância de
elementos
externos como
influenciadores
do processo de
integração
económica. Neste
cenário o
Mercosul surge
como um “deus
ex-machina”,
ainda com o
Estado
controlando seu
processo inicial
de constituição,
mas fornecendo
para o
empresariado um
colchão para a
liberalização
comercial. O
Mercosul parecia
de início muito
menos assustador
do que a
globalização
irrestrita, e
servia como um
excelente tubo
de ensaio.
O liberalismo
político-econômico
nos últimos anos
parece ter sido
correntemente
identificado com
o empresariado
industrial, mas
não devemos nos
esquecer que
historicamente,
o liberalismo é
uma demanda de
importantes
segmentos de
proprietários de
terras. Não é
por acaso que a
sustentação
política do
governo que
destruiu os
vestígios do
corporativismo
estatal
brasileiro
estava
ostensivamente
baseada nas
elites políticas
ligadas ao
ruralismo.
Na medida em que
ele servia aos
objetivos dos
liberais
surgentes e dos
antigos
corporativistas,
visto que era
uma iniciativa
há muito
desejada pelo
Estado, não
houve restrições
políticas quanto
à sua
constituição. A
virtual ausência
de oposição se
deve, portanto,
ao fato de que
ele servia ao
interesse de
gregos e
troianos.