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1- O «Tchiloli» como recurso metonímico dos processos de patrimonialização mundial da UNESCO
O «TCHILOLI» na perspectiva Antropológica e Histórica, é o retalho de um tempo ou de uma época, é o testemunho histórico da nossa longa aculturação. Em suma, pode ser o alicerce promocional da nossa identidade colectiva no mundo. Mesmo sabendo que, nem toda a identidade dá origem ao património, da mesma forma que, nem todo o património cria identidade. Esta constatação permite questionar o modo como os processos de construção identitária se socorrem, por vezes, de recursos aos quais atribuem um estatuto patrimonial (Peixoto, 2000). Mas permite igualmente atestar que os processos de patrimonialização nem sempre visam fins que tenha a ver com a preservação de uma identidade. Pois, estes processos muitas vezes têm uma dimensão económica, o que acaba por suplantar a dimensão identitária dos mesmos. Porém, como estamos situados na periferia do sistema-mundo capitalista, temos que equilibrar as nossas práticas, isto é, “ beijar” a dimensão identitária ou simbólica com a dimensão económica da patrimonialização. Pois hoje, já há muitos estudos no âmbito do turismo e desenvolvimento que, defendem a tese segundo a qual, o turismo cultural irá dentro dos próximos tempo suplantar outras formas de turismo, nomeadamente, balnear, gastronómico etc. De maneira que, assiste-se hoje, uma corrida bastante assídua por parte de muitos países da Europa, América, Ásia e África de Norte sobretudo, à candidatura dos seus bens culturais à património mundial da UNESCO. Porque quanto maior é o número de bens registado, maior será à atractividade turística. 2- Ás Dinâmicas do «TCHILOLI» A Tragédia do Marquês de Mântua e do imperador Carlotos Mangno «TCHILOLI» foi escrita pelo poeta cego madeirense de nome Baltasar Dias, contemporâneo do Gil Vicente, e foi levado para as ilhas no século XVI, período áureo da cana do açúcar. Ela é representada em pequenas clareiras do mato, nos quintais e sempre na estação seca (gravana), que corresponde ao «cacimbo» de Angola. Num espaço de terra batida com vinte metros de cumprimento por dez de largura, ergue-se num topo o palácio do Imperador Carloto Magno, construído sobre estacas, palco modesto todo de tábuas e barrotes, coberto com andalas (ramos de palmeira ou coqueiro), de que também são construídas as paredes. Uma pequena escada dá acesso ao palco, cuja cortina é formada por vários lençóis presos e suspensos em carrinhos de linhas que deslizam num arame esticado (Reis, 1960). Ao fundo do palco, sentado entre dois «conselheiros», o imperador Carlos Magno com a sua farda flamante, enfeitada de cordão dourado e uma taria verde e encarnada (por serem as cores nacionais) em diagonal sobre o peito coberto de imensas chapas metálicas (imagens de santos) brilhando como se fossem condecorações (Reis, 1960). Na cabeça usa uma coroa de latão caprichosamente polida e tem o rosto escondido detrás de uma máscara de rede pintada de branco com duas resetas vermelhas, um bigode de barbas de algodão hidrófilo colados (Reis, 1960). De cada lado do imperador, os seus conselheiros, também de fardas e condecorações vistosas. Á boca da cena e de cada lado, sentados em frente das respectivas secretárias, o ministro da Justiça e o seu secretário. O Primeiro, com uma farda cinzenta actualíssima e o segundo, de branco. (Reis, 1960). O secretário do ministro usa uma caneta de tinta permanentemente, tem um telefone e uma máquina de escrever, como se fosse possível vencer o tempo e o espaço trazendo o Carlos Magno até a nossa época, ou voltar para trás e levar um telefone e uma máquina de escrever para sua corte (Reis, 1960). No outro topo, mais modestamente, fica a família do marquês de Mântua, instalada numa barraca coberta de ramos de coqueiro. O respeitável mar-quês usa cartola fraque e gravata preta; Sibila, a viúva de Valdevinos, assassinado pelo príncipe D. Carloto, filho de Carlos Magno; Ermelinda, mãe da vítima; os embaixadores D. Beltrão e o duque de Amão, todos vestidos de pesado luto (Reis, 1960). Logo adiante, um pequeno caixão sobre um mocho, onde simbolicamente repousa a vítima de D.Carloto (Reis, 1960). Girando constantemente, com um ar bélico, pelo meio do terreiro, o heróico Reinaldo de Montalvão, chefe do exército do marquês de Mântua, tão depressa retorcendo nervosamente os bigodes façanhudos da máscara como puxando ora da bengala ora da espada, com gesto ameaçadores (Reis, 1960). E surgem outras personagens, como D.Roldão, o pajem, o ermitão, ect (Reis, 1960). O texto original é rigorosamente respeitado. Fala-se em bom português de sabor arcaico; é certo, com a pronúncia nacional, mas sem vislumbre de coruptelas. Quando o auto atinge as culminâncias do seu dramatismo, surgem os dois desconcertantes advogados, vestidos de preto, com fato de bom corte, actualíssimos, contrastando singularmente com as restantes personagens. Até os nomes são estranhos, com sabor a estrangeirismo: advogado Bertrand, acusando D.Carloto, portanto ao serviço do marquês de Mântua; o seu colega Anderson, defendendo o príncipe homicida. E argumentação é forte, lógica, violenta, deixando os assistentes suspensos. Citam-se leis, parágrafos, alíneas. Os advogados mesmo sem a ajuda discorrem longa, calorosa e convictamente, em gestos sóbrios e medidos, perante «o ministro da justiça», que se vê embaraçado com a lógica imaginosa dos arguentes, que tão depressa levam a pender para um lado como para outro. Não vá supor-se que este diálogo é pobre. É rico por vezes, embora ingénuo (Reis, 1960). Fala-se bom português e usam-se termos jurídicos que fazem pasmar (Reis, 1960). Todo auto é um misto de dança e pantomima. O pajem que leva a carta de D.Carloto para o seu tio Roldão, conde de Borgonha, em que lhe confessa o crime, é um bailarino em potencial. A cena da perseguição é movimentadíssima. As flautas de bambu elevam as notas, os tambores aceleram o ritmo num crescendo, enquanto o rapazinho se esgueira dançando, a furtar-se graciosamente aos seus perseguidores (Reis, 1960). A «orquestra» é formada por três hábeis tocadores de flautas bambu, por dois ou três tocadores de bombo e por tocadores de «sucalo», ou «sacaia», instrumento constituído por um pequeno cesto contendo sementes, que o homem agita em movimentos certos produzindo sons uniformes, rítmicos, e isto durante longos espaços de tempo, sem que os movimentos vigorosos e constantes lhe tragam sequer vislumbre de fadiga (Reis, 1960). A música tem interesse pelo virtuosismo dos flautistas, e todos conseguem imprimir as mais estranhas gradações conforme as exigências do auto. Sons tristes quando Sibila, Ermelinda e toda família do marquês de Mântua dançam e choram junto do caixão de Valdevinos; fortes e apressados durante os duelos e as cenas de maior intensidade bélica ou dramática (Reis, 1960). A representação deste auto é morosa, pois dura sempre além de cinco horas. Todas as personagens usam máscaras, mantendo-se a tradição mediaval, e só as tiram depois do sol-posto, excepto os casados na igreja católica (Reis, 1960). Pois, segundo a lenda, os homens casados foram abençoados e não têm que esconder a cara do sol. É raríssimo haver festa nas vilas em cujo programa não inclua a tragédia. Também muitos particulares organizam as suas festas e convidam frequentemente o grupos de tragédia, que representam graciosamente, recebendo apenas como retribuição um almoço e ceia constituídos pelos pratos mais famosos das ilhas, tais como o churrasco de frango, o calulú (o conhecido «caruru» da Baía), o jogo, ambos deliciosos, delicados odoríferos, condimentados com grande variedade de frutos e ervas da terra (Reis, 1960). E não faltam os doces, como izaquente, tudo regado com o vinho de palma ou vinho tinto metropolitano. Os convidados são recebidos com uma hospitalidade alegre, franca, espontânea, que cativa qualquer (Reis, 1960). O luso-tropicalismo que está bem patente nas características etnosocio-lógicas deste povo crioulo, na língua, na religião católica que professa, tem neste auto trazido da ex. Metrópole, que subsiste vigorosamente quando já não se fala dele em Portugal nem no resto da Europa, é um dos vários testemunhos vivos da validade e perenidade de uma aculturação cujas raízes mergulham nos séculos. No entanto, este folclore é rico sob todos os aspectos. Os seus autos fariam o encanto de etnógrafos, de sociólogos, de historiógrafos e, sobretudo, do povo português que quer conhecer o povo são-tomense e o povo são-tomense conhecer o povo português, o que é na minha opinião seria o modo de fortalecer as raízes afectivas. Quadro 1 Ordenação dos Países relativamente ao lugar ocupado na Lista do Património Mundial e a posição na hierarquia dos destinos do turismo internacional.
Fonte: LISTA DO PATRIMÓNIO MUNDIAL DA UNESCO (JANEIRO, 2000) WORLD TOURISM ORGANIZATION Hector Costa, mestrando em Sociologia na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra |
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