o    

on line

ARVO

P     on line                                                                                                                                                            Edição: 142, Segunda-feira, 21 de Julho de 2008                

     

      Afinal... porque há escassez de alimentos no mundo? (II)

 

Dependências e a subida dos preços

21-07-08 Os subsídios dos países ricos à exportação de cereais e produtos alimentares, estes mesmos que desde 2000 vêm bloqueando as negociações multilaterais da Organização Mundial do Comércio (OMC), actuam como travão à produção agrícola nos países pobres e em vias de desenvolvimento.

Os agricultores destes países, foram deslocados da produção para a importação a baixo preço, de grãos subsidiados, Haiti é um exemplo, com a importação dos Estados Unidos do arroz mais barato que o produzido localmente.

O economista francês Philippe Chalmin (autor da obra “A pimenta e o ouro negro, edições Bourins, 2007”) afirma que os excedentes agrícolas produzidos graças as subvenções dos anos oitenta e noventa “incitaram os países pobres a não estarem preparados para o que vemos agora”. O abandono da agricultura tradicional e alimentos tradicionais por importações baratas, segundo especialistas da FAO, deixou um grande hiato na produção alimentar de muitos países pobres, o que não é fácil nem possível de ser resolvido rapidamente. O nosso país está pleno de exemplos desta natureza, muita gente jovem, e na nossa terra constituem a maioria da população, preferem o arroz importado à banana, por exemplo.

Esta dependência das importações e da ajuda alimentar, por exemplo, do Japão e de outros países, em vez de doações em dinheiro para a comprar produtos produzidos localmente, contribui para destruir a agricultura nativa, que poderia ter um papel muito importante na resolução dos problemas criados pelo aumento dos preços, como é o caso actual.

Por outro lado, este aumento originou esta crise de alimentos básicos provem em grande medida do aumento dos preços dos materiais agrícolas, combustíveis, fertilizantes e produtos químicos, do incremento da procura mundial devido ao crescimento do poder aquisitivo das classes médias de países como a China e a Índia, da decisão da administração norte-americana em subsidiar a produção de etanol a partir do milho, no uso agro-alimentar para o gado, aves e porcinos.

Com esta medida, o presidente Bush conectou, assim se pode dizer, o mercado de cereais ao petróleo, precisamente quando os preços do crude aumentam vertiginosamente e ao mesmo tempo retirou do mercado agro-alimentar estado-unidense para humanos e engorda de animais cerca de 30 % da produção nacional do milho, provocando um súbito aumento no preço de grãos.

Esta politica teve um “efeito cascata” quando alguns países, entre eles, o Canadá e outros, copiaram a iniciativa americana e assim produzem “combustíveis verdes”. O reverso da moeda mostra que há riscos nestas produções, pois a Europa disto tem exemplo, pois da experiência acumulada com esta prática sugere à marcha-atrás, devido aos riscos ambientais que isto acarreta.

Outro aspecto que contribuiu para o aumento do preço é que certos cereais e oleaginosas, formam parte do mercado de bolsas de mercadorias ou de matérias de matérias-primas, cuja demanda sustentada nos anos do forte crescimento mundial, está em pleno auge, pese a crise financeira e a recessão nos Estados Unidos.

Há semanas num foro organizado pela Commodity Futures Trading Commisssion dos EUA, em Washington, os granjeiros daquele país denunciaram os gerentes dos fundos de inversões como responsáveis por estes aumentos. Os produtores de cereais já não confiam em que os mercados possam de per se fazer assentar os preços adequados e como é lógico se sentem muito frustrados com a situação. Denunciam o crescente impacto dos especuladores financeiros num momento em que, segundo Diana Klemme, vice-presidente de Grain Service Corp. de Atlanta, os produtores de milho estariam há duas semanas da chuva de uma crises que ao acontecer teria um efeito cascata através de toda indústria alimentar.

Cerca de 40 a 50 biliões de dólares do sector financeiro entraram nos últimos meses no mercado de cereais para especular com os preços, segundo Eurointelligence. E como se tudo isto não se chega, há o impacto cada vez mais frequente e real das mudanças climáticas sobre agricultura e pelo seu carácter industrial, é responsável por um terço das emissões de gases contaminantes do ambiente, conhecidos como “efeito estufa”. A seca nos países celeiros do mundo, Austrália, Ucrânia, partes dos EUA e Canada, o esgotamento de aquíferos, de que prometemos desenvolver brevemente, as dificuldades crescentes de água e os chamados “acontecimentos extremos” tornam menos previsíveis a produção, afectam negativamente os rendimentos e qualidade dos cereais.

                  Rendimento agrícola e segurança alimentar

Neste contexto do aumento constante dos preços e antecipada escassez, os governos dos países exportadores, Argentina, Rússia, Kazaquistão, Indonésia e outros, entre eles o Brasil, este último com estratégias não muito vincadas, tomara medidas para apropriar-se de uma parte desse rendimento agrícola (impostos à exportação e ou controle dos volumes de exportação para evitar o açambarcamento local e garantir a oferta no mercado doméstico a preços razoáveis).

O director para América Latina e Caraíbas da FAO, José Graziano, disse numa recente conferência sobre o tema, que é necessário “recuperar o papel regulador do Estado no sector agro-pecuário, como meio de fazer frente a crise que periodicamente têm um impacto nos produtores, em especial os de menos recursos”, citamos IPS.

Na União Europeia e também noutros países, esta crise está reavivando o debate sobre a segurança alimentar e soberania alimentar, um assunto promovido por pequenos e médios agricultores mas também por ecologistas e organizações internacionais, como o Banco de Desenvolvimento do Caribe (BDC).

O relatório da Avaliação Internacional do Conhecimento, Ciência e Tecnologia no Desenvolvimento Agrícola, elaborado por 400 peritos da UNESCO, conclui que os melhores rendimentos na agricultura não levaram a uma redução significativa da pobreza, que ainda afecta 37% da população da população da América Latina e das Caraíbas. A importância da alimentação criou dependência e destruiu a produção local, assinala o referido estudo.

O rendimento não pode ser o único factor para medir o êxito de uma exploração agrícola, destacou o representante da organização ambientalista Greenpeace Internacional, Jan van Aken, para quem deve considerar-se até que ponto a agricultura promove as necessidades nutricionais.

A agricultura depende muito do desenvolvimento do sector não agrícola, tais como crédito, factores de produção, fertilizantes, insecticidas, terra, disponibilização de água. Vimos que a melhoria da produtividade na agricultura também depende do sector não-agrícola, de se poder ampliar constantemente para absorver volumes crescentes de produtos e de mão-de-obra agrícola. O que se espera do sector agrícola é que este possa reagir às mudanças de demanda do mercado local.

Quisemos fazer uma nuance entre agricultura, a crise actual e bens de consumo, como os alimentos, para uma boa compreensão do fenómeno que vivemos diariamente. Não nos parece justo e equilibrado, que o nível do debate sobre estes assuntos deva-se ficar só pelo uso desta crise como “arma de arremesso político” que tanto temos ouvido e acompanhado no nosso belo São Tomé e Príncipe e isto não se venha em transformar em motivo para “banhos”... Fim

                 “Joaquim Silva”

       Mestrado em Governabilidade

        e Desenvolvimento Humano

"O Parvo" Propriedade   da Sociedade de Informação e Publicação, Lda- SIP.Registo SNSTP Nº 1.012, Rua de Moçambique  Dist. de Água Grande S.Tomé - RDSTP,  C.P. 535 Tel. 224568, Telm: 907743, Fax: , visitas desde 22 de Novembro de 2007, E-mail: oparvo@cstome.net