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Afinal... porque há escassez de alimentos no mundo? (I)
A história regista a “grande fome” sofrida pelos irlandeses em 1845 e no ano seguinte tiveram a mesma sorte os escoceses, povos que dependiam do monocultura da batata, que na altura era o principal alimento dos pobres e que devido a uma praga viram suas culturas serem dizimadas devido ao advento de uma praga massiva (Phytoptora infestans). Estes acontecimentos ficaram registados como advertência dos riscos da monocultura que hoje se constitue em norma do modelo industrial e agroexportador mundial para diversos produtos entre eles os cereais, oleaginosas e outros grãos alimentares. O aumento do desabastecimento e fome provoca medo nas maiores economias mundiais, a cabeça, os Estados Unidos da América, onde cadeias comerciais começam a impor limites à venda de certos produtos, tais como o arroz e isto é sintomático de que algo muito grave está para acontecer. E em São Tomé e Príncipe, país importador por excelência, qual é a resposta a esta situação? Os menos avisados não vislumbram esta situação pela coexistência no mercado de produtos importados e locais. Estas crises por fome podem provocar distúrbios sociais, como os vistos em vários países do nosso continente, Camarões, Zâmbia, para citar alguns ou promover migrações massivas, como as observadas pelos irlandases e escoceses, pois quando o estômago está vazio, “homem pode chegar a dar Deus com faca”, assim reza a sabedoria popular são-tomense. Claro está, os piores cenários verificam-se em países pobres e promovem a apetência à emigração para os países ricos. A introdução da cultura da batata na Europa deveu-se ao seu maior ren-dimento por hectare em relação aos cereais. Como se sabe esta cultura é proveniente do Perú e da Bolívia. Então, há propostas de instituições credí-veis para a produção de culturas alternativas como a batata. Qual é a solução preconizada pelos dirigentes deste país? Temos a banana. Qual a política e estratégia para a produção da mesma no país. Que fazer e como fazer? Mas a escassez, segundo o Banco de Desenvolvimento da Ásia, não é a causa do aumento em 150 por cento do preço do arroz naquele continente, nem é razão principal desta crise alimentaria, já bastante pronunciada em mais de 33 países, cito o Banco Mundial. Prevê-se agravação desta situação em mais países, nas semanas vindouras, segundo peritos de instituições internacionais. Esta crise em que o mundo já se encontra mergulhado, não tem uma só explicação nem soluções fáceis, dizem peritos da agricultura e ecologia, que destacam a revisão profunda do modelo de produção e comercialização agrícola como resposta ao crescimento mundial combinado da população e do poder aquisitivo de alimentos. Modelo agroexportador e subsídios Nos países ricos, a produção agro-industrial foi protegida com subsídios que não só serviram para “ganhar votos” nas zonas rurais e aqui está a lição do nosso “banho”, mas também para acelerar a concentração da produção e a exportação nas mãos de poucas empresas, permitindo-as vender nos mercados estrangeiros a preços mais baixos que os dos produtores locais ou do que os produtos locais. Vejamos o preço da batata rena (inglesa) pro-duzida localmente em relação a importada, a carne de frango nacional em relação a estrangeira, a banana em certos períodos em relação ao arroz! Estes avultados subsídios só serviram para destorcer o comércio, deslocando ou arruinando os habitantes dos países do terceiro mundo na produção de bens alimentares locais e forjaram o estado de dependência que agora nos castiga com fome nos países africanos, da América latina. A actual crise é a crise do modelo agroexportador mundial, dominado há mais de 50 anos por grandes companhias transnacionais, que tiveram lucros fabulosos em 2006. Estas, foram diversificando suas operações para controlar todos aspectos do “agronegócio”, controlando desde a venda de sementes, fertilizantes, insumos agrícolas até o armazenamento, comercialização e exportação mundial de grãos. Assim, para maximizar os lucros estas super-em-presas implantaram a monocultura de diversos grãos à escala mundial. Apoiando-se nos transgénicos, chegam mesmo a eliminar de maneira brutal, variedades nativas o que provoca o êxodo rural de pequenos agricultores. Destruição da pequena e média agricultura Este modelo agro-industrial requer enormes quantidades de capitais para operar de maneira eficiente, o que por si explica a desaparição de pequenas e médias produções agrícolas em quase todo mundo, com maior incidência nas melhores regiões. E esta situação também explicam o desaparecimento de cultivos de variedades vegetais e de práticas alternativas, como o denunciam a União Nacional de Granjeiros do Canada e sua contraparte americana, que propõe a adopção de uma política de “segurança alimentar” como contrapeso a política de comercialização vigente. E nós em São Tomé e Príncipe, que fazemos? Qual será nossa estratégia, sendo que temos algumas fraquezas mas também alguns pontos fortes que devem ser explorados? Se a agricultura é um negócio, é lógico plantar-se soja em todas partes e como dizia da economia da Argentina há anos recentes, até nos carris dos comboios. Mas vejamos, se for uma questão de segurança alimentar, como descoberto muito recentemente pelo governo de Buenos Aires quando aplicou um novo imposto à exportação para recuperar uma parte da extraordinária renda agrícola dos exportadores de soja, exportada quase em totalidade para Europa e China, não favorecesse que este produto desincentivasse a produção de trigo, sorgo, girassol, milho e outros exportáveis e de consumo nacional, nem tão pouco à criação de gado. “Joaquim Silva” Mestrado em Governabilidade e Desenvolvimento Humano (Continua na próxima edição) |
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