Abril  2008  labor sociedade de noticias  s.tome e príncipe     /s.tomé   2007/2008

 
 
 
 

Nada será o mesmo

Acabou o petróleo barato

* O preço aumenta cada vez mais

 O petróleo barato nos empurrou para uma realidade de profunda dependência. Ficamos viciados em seus produtos.

A sociedade de consumo é reflexo desse petróleo barato. Produzimos o supérfluo, consumimos esse supérfluo e precisamos produzir mais dele, para manter a economia funcionando. O petróleo barato tem sido o combustível dessa lógica.

Usamos pouco e mal cada novo produto que chega ao mercado, induzido pela eficientíssima propaganda. Antes de esgotar seu uso, quando ainda tem muito a oferecer, jogamos fora esse produto e adquirimos a nova mercadoria que chega. Frequentemente, o “novo” é o antigo com alguns enfeites supérfluos, apoiado em competente campanha de marketing.
Esse permanente “use e jogue fora” só tem sido possível pela abundância de energia barata: a queda dos custos de produção alimenta a sociedade de consumo e de desperdício.
O fim da economia do petróleo barato vai abalar essa lógica em que temos sobrevivido. É nossa maneira de viver que fica ameaçada.


Diante da visão da crise do petróleo, recurso reconhecidamente finito e com consumo crescente, tem-se buscado desesperadamente alternativas a ele. Da energia solar à eólica, da nuclear ao carvão, do agro-combustível à economia do hidrogênio.
As energias solar e eólica têm grande potencial de crescimento e serão, seguramente, utilíssimas em pequenas comunidades ou para situações localizadas. Entretanto, não têm qualquer condição de responder às necessidades da sociedade do automóvel e do desperdício.
A nuclear, com questões de segurança ainda pendentes, tem limitação quanto às reservas existentes.
O carvão, com reservas enormes, se usado para substituir as necessidades decorrentes da queda da produção de petróleo, levará a poluição a níveis insuportáveis.
A esponja de hidrogênio é muito mais uma transportadora de energia, de baixo rendimento, que uma geradora, em especial para as necessidades decorrentes da previsível queda na produção de petróleo.
No agro-combustível, o exemplo do pro-alcool tem tido indiscutível sucesso na substituição da gasolina. Tentar mundializar essa solução traz o risco de ameaçar a produção de alimentos, num mundo faminto. Entre produzir alimento para pobre ou “gasolina” para carro de rico, a lógica do Capital será implacável e veremos grandes extensões de terra desviadas da agricultura alimentícia. Os preços dos alimentos iriam disparar, a exemplo do ocorrido com o preço do milho nos EUA e no México, pelo seu uso na produção de etanol para a indústria automobilística. E, ainda assim, não há terra suficiente para as centenas de milhões de carros.
De fato, o presente que nos deram os deuses, dois trilhões de barris de petróleo, nos viciou. Com essa energia barata, ficamos escravos da lógica da sociedade de consumo.

É fundamental entender que o Capital só respeita uma lógica, a lógica da reprodução expandida. O dono do Capital compra máquinas, matéria prima e paga salário ao operário. Utilizando energia barata, os operários operam as máquinas que consomem a matéria prima e produzem mercadorias. Essas mercadorias são vendidas no Mercado e o dono do Capital precisa receber, com elas, mais do que investiu em matéria primas, na depreciação de suas máquinas e nos salários pagos. É a lógica da reprodução expandida, com a qual reproduz seu Capital e o amplia.
Quando o mundo era suposto infinito, sempre com novas fronteiras a conquistar, a lógica da reprodução expandida trouxe enorme desenvolvimento. O progresso, com todos os seus defeitos, foi fantástico. É olhar e ver o crescimento da produção, a queda da mortalidade infantil, o aumento da vida média do ser humano, onde o próprio crescimento da população é um indicador claro.
Hoje, o “mundo é finito”. Não há mais fronteiras a conquistar. Tivéssemos ido a Marte, Júpiter, Vênus, e a lógica da reprodução expandida poderia permanecer. Num mundo finito, essa lógica se transforma numa metástase da sociedade humana, ameaçando o corpo de que ela própria se alimenta. Poluição, efeito estufa, aquecimento global, derretimento de geleiras, tufões são efeitos da actuação descontrolada do Capital. Em risco a vida humana, nossa sobrevivência no planeta.
É fundamental ter uma sociedade menos exigente em energia, no lugar de depender de maior produção. Esse caminho nos está levando a um beco sem saída.
Construir outra lógica na relação com a natureza e com os outros seres humanos é necessidade imperiosa de nossa própria sobrevivência. Não sei se há tempo para essa construção. A barbárie é uma possibilidade não desprezível.
Entretanto, enquanto há esperança, mãos à obra.

 

 

 

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