Nada será
o mesmo
Acabou o petróleo
barato
*
O preço aumenta cada vez mais
O
petróleo barato nos empurrou para uma realidade de profunda
dependência. Ficamos viciados em seus produtos.
A sociedade de
consumo é reflexo desse petróleo barato. Produzimos o supérfluo,
consumimos esse supérfluo e precisamos produzir mais dele, para
manter a economia funcionando. O petróleo barato tem sido o
combustível dessa lógica.
Usamos pouco e
mal cada novo produto que chega ao mercado, induzido pela
eficientíssima propaganda. Antes de esgotar seu uso, quando ainda
tem muito a oferecer, jogamos fora esse produto e adquirimos a nova
mercadoria que chega. Frequentemente, o “novo” é o antigo com alguns
enfeites supérfluos, apoiado em competente campanha de marketing.
Esse permanente “use e jogue fora” só tem sido possível pela
abundância de energia barata: a queda dos custos de produção
alimenta a sociedade de consumo e de desperdício.
O fim da economia do petróleo barato vai abalar essa lógica em que
temos sobrevivido. É nossa maneira de viver que fica ameaçada.
Diante da visão da crise do petróleo, recurso reconhecidamente
finito e com consumo crescente, tem-se buscado desesperadamente
alternativas a ele. Da energia solar à eólica, da nuclear ao carvão,
do agro-combustível à economia do hidrogênio.
As energias solar e eólica têm grande potencial de crescimento e
serão, seguramente, utilíssimas em pequenas comunidades ou para
situações localizadas. Entretanto, não têm qualquer condição de
responder às necessidades da sociedade do automóvel e do
desperdício.
A nuclear, com questões de segurança ainda pendentes, tem limitação
quanto às reservas existentes.
O carvão, com reservas enormes, se usado para substituir as
necessidades decorrentes da queda da produção de petróleo, levará a
poluição a níveis insuportáveis.
A esponja de hidrogênio é muito mais uma transportadora de energia,
de baixo rendimento, que uma geradora, em especial para as
necessidades decorrentes da previsível queda na produção de
petróleo.
No agro-combustível, o exemplo do pro-alcool tem tido indiscutível
sucesso na substituição da gasolina. Tentar mundializar essa solução
traz o risco de ameaçar a produção de alimentos, num mundo faminto.
Entre produzir alimento para pobre ou “gasolina” para carro de rico,
a lógica do Capital será implacável e veremos grandes extensões de
terra desviadas da agricultura alimentícia. Os preços dos alimentos
iriam disparar, a exemplo do ocorrido com o preço do milho nos EUA e
no México, pelo seu uso na produção de etanol para a indústria
automobilística. E, ainda assim, não há terra suficiente para as
centenas de milhões de carros.
De fato, o presente que nos deram os deuses, dois trilhões de barris
de petróleo, nos viciou. Com essa energia barata, ficamos escravos
da lógica da sociedade de consumo.
É fundamental
entender que o Capital só respeita uma lógica, a lógica da
reprodução expandida. O dono do Capital compra máquinas, matéria
prima e paga salário ao operário. Utilizando energia barata, os
operários operam as máquinas que consomem a matéria prima e produzem
mercadorias. Essas mercadorias são vendidas no Mercado e o dono do
Capital precisa receber, com elas, mais do que investiu em matéria
primas, na depreciação de suas máquinas e nos salários pagos. É a
lógica da reprodução expandida, com a qual reproduz seu Capital e o
amplia.
Quando o mundo era suposto infinito, sempre com novas fronteiras a
conquistar, a lógica da reprodução expandida trouxe enorme
desenvolvimento. O progresso, com todos os seus defeitos, foi
fantástico. É olhar e ver o crescimento da produção, a queda da
mortalidade infantil, o aumento da vida média do ser humano, onde o
próprio crescimento da população é um indicador claro.
Hoje, o “mundo é finito”. Não há mais fronteiras a conquistar.
Tivéssemos ido a Marte, Júpiter, Vênus, e a lógica da reprodução
expandida poderia permanecer. Num mundo finito, essa lógica se
transforma numa metástase da sociedade humana, ameaçando o corpo de
que ela própria se alimenta. Poluição, efeito estufa, aquecimento
global, derretimento de geleiras, tufões são efeitos da actuação
descontrolada do Capital. Em risco a vida humana, nossa
sobrevivência no planeta.
É fundamental ter uma sociedade menos exigente em energia, no lugar
de depender de maior produção. Esse caminho nos está levando a um
beco sem saída.
Construir outra lógica na relação com a natureza e com os outros
seres humanos é necessidade imperiosa de nossa própria
sobrevivência. Não sei se há tempo para essa construção. A barbárie
é uma possibilidade não desprezível.
Entretanto, enquanto há esperança, mãos à obra.