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São Tomé é de Todos os santomenses

segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010 08:30:36 -0000
   
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Biafra continua a ser sinónimo de fome entre muitos são-tomenses
A guerra do Biafra, há 40 anos, ainda hoje evoca na memória dos são-tomenses mais velhos imagens do espectro da fome e de milhares de crianças malnutridas provenientes do território secessionista, reporta a Agência Lusa.


As autoridades coloniais permitiram o estabelecimento de uma ponte aérea de ajuda humanitária entre a Nigéria e o arquipélago destinada a salvar milhares de crianças, principalmente órfãos de guerra.

"Os são-tomenses não tinham a consciência do que estava a acontecer. Ouviam dizer que havia uma guerra algures, mas não sabiam exactamente onde e porquê", diz Maria Quaresma Andreza, hoje com 83 anos de idade, mas que afirma lembrar-se "muitíssimo bem" dos acontecimentos.

No hospital foram construídas novas unidades pediátricas para acolher as crianças refugiadas do conflito.

Dois aviões que participaram nessa ponte aérea, alguns destroços ainda se encontram estacionados nas imediações do aeroporto internacional de são Tomé, tendo sido um deles transformado num restaurante, por um cidadão são-tomense.

Em Santo António, periferia da capital ainda estão de pé as casas construídas para a convalescença dos meninos biafrenses, órfãos de guerra que marcaram muito o imaginário são-tomense.

O Biafra foi para os são-tomenses o símbolo da fome. A imagem de todas aquelas crianças esqueléticas e desnutridas representa o sinónimo da fome. Até hoje, na ilha, quando se quer referir a uma pessoa magra, é costume dizer-se aquele "é tão magro que até parece um biafrense".

"Eram muitos miúdos que chegavam cheios de fome, era uma cena triste, de dar pena", lembra Maria Andreza que trabalhou, na altura na Quinta de Santo António, e que depois deixou de ser "lavadeira de branco" (lavadeira de um cidadão português).

"Eu era uma espécie de 'faz tudo'. Varria e apanhava o lixo, aquecia a água para tratar dos miúdos, lavava e passava", recorda.

São Tomé que era uma ilha muito pacata, que praticamente ninguém conhecia, passou quase de repente a ser bastante frequentada.

A ponte aérea de assistência humanitária que trouxe para São Tomé várias centenas de crianças, trouxe também cidadãos de outras nacionalidades.

"Estrangeiros que falavam línguas diferentes entravam e saíam na nossa terra e durante o tempo que permaneciam cá faziam também pequenos negócios de géneros alimentícios, e de pequenos objectos", conta Maria Andreza.

Houve também um certo florescimento do comércio. Os dólares circulavam.

São Tomé funcionou também como uma placa giratória de fornecimento de armas aos rebeldes que lutavam na altura pela sucessão do Biafra e contra a ditadura do então ditador nigeriano.

Depois da guerra houve uma síndrome provocada pelo receio de uma possível retaliação da Nigéria, o que nunca aconteceu.

São Tomé foi a base de apoio a essa ajuda humanitária e graças a ela muitas centenas de crianças foram salvas.
 

 
 

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