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Palestra proferida pelo Presidente da Assembleia Nacional na ilha do Príncipe  

Epoca/Epoca

Caros amigos:

Permitam-me antes de tudo uma confissão:

Quando o senhor Presidente do Governo Regional e meu amigo Tó Zé Cassandra me lançou este desafio, comecei por hesitar. Por um lado, não queria de modo algum, numa quadra tão especial, desperdiçar a oportunidade deste convívio, esta possibilidade de estar convosco nesta linda cidade de Santo António, que com o esforço, o trabalho e a inteligência de todos nós irá sendo cada vez mais linda e mais próspera. Mas por outro lado, não queria repetir as mesmas coisas que vou dizer no discurso oficial no dia 29, nem fazer concorrência ao Nestor Umbelina e ao Tó Zé falando das coisas de que eles falam – com tanto vigor e autoridade e melhor do que eu, tenho a certeza! - em todas as sessões do Governo e da Assembleia regionais.

Eu tinha portanto um pequeno-grande problema:

Falar sim e com muito prazer e muita honra... mas falar sobre o quê?

Fui pensando, pensando... e já que estou em maré de confissões, deixem-me dizer-vos que pensei para comigo que para mim teria um significado muito especial conversar com os mais jovens. Por isso, falei com o Dr. Carlos Gomes, que me assegurou que iria incluir no auditório jovens da Região. Espero que os jovens da minha idade não se sintam melindrados.

Foi portanto a pensar sobretudo nessa juventude que me ocorreu falar um pouco sobre o papel da ilha do Príncipe na projecção da cultura nacional, tomando como referências ilustres minu yês, filhos notáveis desta ilha, são-tomenses que, com o seu esforço, criatividade e imaginação, engrandeceram e engrandecem o nosso país e a sua imagem.

Todos sabemos que São Tomé e Príncipe, com todas as suas dificuldades, problemas e desafios, tem na juventude um enorme potencial em termos de crescimento, desenvolvimento e realização. A camada infanto-juvenil perfaz a maioria da população de São Tomé e Príncipe e é do seio dessa camada que irão sair os quadros, os artistas, os músicos, os escritores, os poetas, os pintores, os escultores, aqueles que, pela sua imaginação e o seu talento criativo se irão distinguir e nos irão distinguir enquanto nação com uma história e identidade próprias em contacto com outras culturas e outras identidades.

A  riqueza mais duradoura, aquela cujos frutos passarão de geração em geração, resultará da nossa capacidade de educar e formar cidadãos capazes de pensar, de sonhar, de transformar, de criar e de recriar o que somos e o que queremos ser.

Nesse processo que não dispensa o concurso dos pais e dos professores ou seja, a conjugação da família e da escola, adquire importância crucial a qualidade das referências e dos exemplos que a sociedade oferece, aqueles que pela sua vida, pela sua persistência, pelo seu esforço e pela sua obra se transformam em fonte de inspiração para os seus concidadãos.

Não há muito tempo, vivi uma experiência pessoal muito complexa e dolorosa que me levou a escrever um despretensioso livro no qual falo de mim, da minha vida, da minha família, do meu trajecto e também do nosso país, dos seus problemas, das suas potencialidades e da sua trajectória.

Isso ajudou-me a compreender muito melhor a importância do registo da memória quer pessoal quer colectiva e o papel da escrita, o papel da literatura bem como outras expressões artísticas enquanto registo e afirmação de identidade.

E isso habilitou-me a compreender melhor a importância destes filhos da ilha do Príncipe que nos prestigiaram aquém e além-fronteiras; nomes que contribuiram para estruturar a nossa identidade, ajudando a definir o modo como nos olhamos e o modo como os outros nos percepcionam.

Vou falar de um poeta, Marcelo Veiga da Mata; de uma poetisa, Maria Manuela Margarido; de um músico, Camilo Domingos e de um artista plástico, Protásio de Pina.

Não sou um especialista na matéria e as palavras e ideias que aqui trago são antes de tudo, inspiradas pelo senso-comum, pelo afecto, pela força do exemplo e pela gratidão, pelo que peço a vossa indulgência.

Marcelo Veiga da Mata

Começo, como não podia deixar de ser, pelo lendário Marcelo Veiga da Mata, poeta, patrono do cinema em São Tomé e, já agora, avô da ministra da Educação, Ruth Menezes Leal. Marcelo da Veiga foi uma personalidade que me marcou e marcou indirectamente outros da minha geração apesar de nunca termos tido o privilégio de o conhecer. Marcou-nos pelo respeito com que dele nos falaram aqueles que o conheceram e que o descreviam como um homem muito instruído e culto, de uma grande integridade de carácter, corajoso e solidário, sempre pronto a combater as injustiças do sistema colonial, razão pela qual foi por duas vezes preso, primeiro em São Tomé, em 1959 e já na década de 60 em Luanda.

Lembro-me de uma composição do socopé Templa Seco em que Mé Pombô dizia... ‘ non bilá colê cabêça lemblá Maçê da Mata falecido. Homé cu tava migu d’homé, bila tê fôça mó zamba, bilâ tê cloçon felu...’- nós recordamo-nos do falecido Marcelo da Mata, um homem que era amigo de outros homens, que tinha a força de um gigante e tinha uma vontade de ferro.’

Isso ilustra a meu ver o enorme respeito que ele granjeou em vida, a função de líder que lhe era reconhecida.Vou pedir a uma jovem aqui da Região para ler um poema para ajudar a perceber porque razão, no regime colonial, um homem como Marcelo da Veiga foi parar à prisão duas vezes.

Nova Lira – Canção

Quem embarcou no porão

Fechado a sete chaves,

Apertado entre traves,

Sem ver sol sem ver a lua?

Foi o preto!

Quem deixou a terra,

-filho ingrato que fugiu

ao pai e à mãe que não mais viu,

’ra ir acabar como um cão?

Foi o preto!

Quem a mata derrubou,

E cavou e semeou

E co’a sua mão de bruto

Cuidou, recolheu o fruto?

Foi o preto!

Quem fez o ‘senhor ’– o patrão;

Lhe tirou da vida aflita

Lhe deu senhora bonita

E importância e situação?

Foi o preto!

Ele escreveu vários poemas com esta tónica, de denúncia aberta do racismo, de denúncia da subjugação e exploração dos negros e também de uma orgulhosa afirmação da sua cor e da sua condição de africano.Uma outra jovem vai agora ler só um fragmento de outro poema, escrito em 1935 cá na ilha do Príncipe, para mostrar como é que Marcelo da Veiga foi um homem avançado para a sua época, uma espécie de profeta. O Gana foi o primeiro país da África sub-saariana a tornar-se independente e isso aconteceu 1957. Vejam agora o que é que o poeta Marcelo da Veiga já escrevia em 1935...1935...!

Africa é Nossa

África não é terra de ninguém

De qualquer um que nem sabe de onde vem;

Terra de refúgio e abrigo

Da Virgem e do Menino

Na hora dura do pr’igo.

Não é este, é outro o seu destino,

Destino de esplendor do sol que brilha

Não este de despromoção que humilha...

Qualquer parcela de África tem povo.

Tem o seu povo, qualquer outro novo

Não é para mandar, falar co’entono,

Mas pr’a a ajudar, agenciando a vida;

Porque o seu povo é que é o seu dono!...

( O poema é longo e continua, mas este fragmento parece-me suficiente para ilustrar as ideias e a fibra cívica de Marcelo da Veiga.)

Este cidadão-poeta, este poeta que já em 1935 escrevia assim, esse exemplo cívico, cuja poesia dignifica e engrandece São Tomé e Príncipe, viu o seu nome ser dado ao único cinema do país, o cinema Marcelo da Veiga. Isto aconteceu após a proclamação da independência e tratou-se da merecida homenagem do país a um dos seus filhos mais ilustres.

Mas não basta o nome dado ao cinema. Continua a ser importante hoje dizer à juventude quem foi Marcelo da Veiga, continua a ser muito importante divulgar a sua poesia, inserindo-a na época em que foi produzida, os senhores professores saberão melhor do que eu como o fazer, o que me parece muito importante é não permitir que esta referência se apague, é importante encontrar formas de a ir actualizando e é sobretudo importante criar condições para que os valores de justiça social que Marcelo da Veiga defendeu sejam uma realidade no nosso país.

Maria Manuela Margarido

Agora se me permitem, vou evocar aquela velha senhora muito bonita e de cabelos brancos que se chamava Maria Manuela Margarido e que faleceu em Lisboa em Março de 2007.

Manuela Margarido nasceu na Roça Olímpia, em 1925.

Deixou cedo o arquipélago, tendo vivido depois em Portugal e também em França, onde estudou Ciências Religiosas.

Foi embaixadora de São Tomé e Príncipe em Bruxelas e junto de outras organizações internacionais e deixou-nos um livro de poesia intitulado ‘ Alto como o Silêncio’. Os poemas denunciam a injustiça social, a falta de liberdade existente na altura, a dura realidade que se vivia nas roças de cacau e de café.

Esses poemas exemplificam o que eu dizia há pouco quando me referi à preservação da memória pessoal e colectiva, porque tendo sido escritos fora do Príncipe, longe do nosso arquipélago, eles falam de nós, falam do Príncipe, falam de uma certa realidade que se vivia na então colónia, denunciam as humilhações quotidianas, o medo, a falta de liberdade ao mesmo tempo que perspectivam uma sociedade mais justa e mais solidária.

Estes poemas não morreram com ela, estão aí nas antologias, estão aí na internet, estão aí para serem lidos, conhecidos, declamados, reeditados e cantados.

Quando digo cantados, estou a desafiar os nossos compositores e artistas musicais a fazerem uma ponte entre a arte poética e a arte musical, transformando em música o trabalho dos nossos poetas e facilitando assim a sua divulgação e conhecimento junto do povo. Já tem havido um ou outro exemplo, mas seria interessante ver poemas dos nossos mais celebrados poetas, como Caetano da Costa Alegre, Marcelo da Veiga, Manuela Margarido, Francisco José Tenreiro, Alda Espírito Santo ou Tomás de Medeiros transformados em música e vivendo na boca do povo.

Nessa linha, se eu fosse o Felício Mendes ou o Açoreano ou Gilberto Gil Umbelina ou o Kalú Mendes ou o Zézito ou o Manuel Salomé ou a Sebastiana (não posso incluir o famoso África Verde porque já não existe embora a lembrança continue), se eu fosse um deles e tivesse que musicar poemas de Manuela Margarido, um dos escolhidos seria este, que tem o sugestivo título de:

Memória da Ilha do Príncipe

Mãe, tu pegavas charroco

Nas águas das ribeiras

A caminho da praia.

Teus cabelos eram lemba-lembas

Agora distantes e saudosas,

Mas teu rosto escuro

Desce sobre mim,

Teu rosto liliácea

Irrompendo entre o cacau,

Perfumando com a sua sombra

O instante em que te descubro

No fundo das bocas graves.

No sonho do Pico as mangas percorrem a órbita lenta

Das orações dos ocás e todas as feiticeiras desertam

A caminho do mal, entre a doçura das palmas.

Na varanda do marapião

Os veios da madeira guardam

A marca dos teus pés leves

E lentos e suaves e próximos.

E ambas nos lançamos

Nas grandes flores de ébano

Que crescem na água cálida

Das vozes clarividentes

Enchendo a nossa África

Com sua mágica profecia.

Fica o meu desafio aos músicos para que cantem os nossos poetas.

Camilo Domingos

Bom, agora tenho um sério problema:

Uma coisa é vir cá evocar Marcelo Veiga da Mata e Manuela Margarido, outra muito diferente é pretender vir cá, justamente à cidade de Santo António, falar de um dos mais populares cantores de São Tomé e Príncipe nos últimos anos, um rosto ainda tão fresco, uma voz ainda tão viva.

Exactamente, Camilo Domingos, que conhecemos ou dos seus concertos, ou da televisão ou na rua. Creio que ele vinha com uma certa regularidade ao Príncipe, não?É isso. Já percebem portanto porque é que eu digo que é uma grande ousadia falar dele aqui, entre tanta gente que o conheceu de perto, que ainda tão recentemente privou com ele, familiares, amigos, antigos condiscípulos, pessoas que o amaram e que de certeza têm muitas estórias dele para contar.

Ousadia também porque acho que a melhor maneira de se falar de Camilo Domingos seria tendo aqui uma boa aparelhagem para ouvirmos a sua música. Felizmente as músicas de Camilo continuam a ser tão populares e frequentes como sempre nas antenas da Rádio Nacional.

Portanto e até para não ser chamado de atrevido, o que dizer pois sobre o nosso cantor tão prematuramente desaparecido? Que tendo nascido cá no Príncipe, partiu em busca de outros horizontes e de outros caminhos, que com esforço e determinação ele construiu uma carreira musical amplamente reconhecida pelo público são-tomense e com repercussões além-fronteiras.

Camilo Domingos foi um exemplo de sucesso para muitos jovens e sendo a sua música tão popular, creio que o risco de apagamento ou esquecimento da sua obra está salvaguardado, facto com que nos devemos congratular.

Protásio de Pina

Deixei para o fim outro nome que muitos dos presentes nesta sala conheceram e com quem terão convivido, alguém que viveu quase toda a sua vida no país apesar de ter recebido convites para desenvolver o seu trabalho artístico no estrangeiro.

Falo de um dos artistas mais talentosos da sua geração. Uma pessoa de trato afável e despretensioso, de uma grande simplicidade.

Falo do artista plástico - paisagista, desenhador e muralista Protásio de Pina, tão conhecido e estimado por todos nós, um dos primeiros grandes divulgadores do nosso jovem país no estrangeiro e autor do perfil do Rei Amador tal como pode ser visto no Jardim central de Santo António.

As ilustrações de Protásio aos nossos postais e selos, com imagens da nossa flora e fauna, as plantas, os frutos, as borboletas, os animais, transportaram e continuam a transportar longe o nome a imagem de São Tomé e Príncipe, quer através de exposições internacionais, quer pela mão de turistas e outros visitantes. E é preciso termos em conta que naquela altura não havia a internet e não havia o programa ‘Na Roça com os tachos’, o que confere uma importância acrescida a essas formas de divulgação.

Protásio foi, como disse, pintor, desenhador, muralista.

Um dos seus quadros, decerto uma daquelas suas paisagens de cores tão vivas e tão próprias, está hoje no Vaticano, na residência oficial do Papa. Uma grande honra para qualquer artista.

Outros estão espalhados por aí, levados por pessoas que visitaram o nosso país e ficaram encantados com o seu estilo de pintar as nossas paisagens.

Há-de haver decerto no país quem possua quadros seus em casa, talvez algum dos presentes tenha um, eu não tenho mas esta pena é suavizada porque tenho a possibilidade de olhar frequentemente para a pintura mural, aquele mapa de São Tomé e Príncipe, que o artista deixou gravado numa das fachadas do Hotel Miramar e que tem sido felizmente bem preservado. O mesmo não aconteceu, infelizmente, com um belo mural seu no hoje defunto Clube Náutico.

Propus-me falar destes quatro grandes nomes, mas seria imperdoável não me referir, com enorme respeito e gratidão, a outras figuras marcantes que também já nos deixaram, como Avelino, Mé Pombo, Maria Preta, Silvestre Nunes “Fiabó” e Manuel das Candeias, entre outros, – Interpretes e Compositores brilhantes, figuras fundadoras e emblemáticas do Socopé Templá Seco, do “Deixa” e do “Vindes Menino”.

Não vos queria cansar muito e peço que perdoem alguma omissão ou esquecimento, sobretudo porque estou ciente de que o dinamismo da nossa cultura e a sua projecção externa deve e vai continuar a dever muito à ilha do Príncipe. Nestes dois aspectos também não me perdoaria se não saudasse de forma muito especial o brilhante trabalho da professora Inocência Mata, estudiosa incansável e constante divulgadora da nossa cultura.

Não posso deixar por outro lado de referir os músicos Felício Mendes e Gilberto Gil Umbelina, pelo trabalho que vêm fazendo além-fronteiras e ao Manuel Salomé por tudo o que continua fazendo aqui no nosso país.Estive muitos anos ligado à cultura desportiva e queria manifestar também o meu profundo apreço e admiração pelo Armandinho.

Voltando a Protásio de Pina e agora sim, para terminar, apetece dizer que filho de peixe sabe nadar. Porque o talento e a imaginação do artista plástico tiveram paralelo no talento inventivo de seu pai, também Protásio de Pina, recentemente falecido, um homem excepcional, profissional muito dedicado, um inventor que entre muitas outras habilidades e capacidades, conseguia dar luz à cidade de Sto António fabricando peças que não havia na ilha e que não podiam vir de São Tomé porque também lá não existiam na EMAE.

 pelos vistos a veia artística corre mesmo na família porque o irmão Cagildo Pina também está a construir o seu espaço.Costuma-se dizer que santos de casa não fazem milagres e é verdade que muitas vezes, até pela proximidade, ocupados com o dia-a-dia, perdemos de vista a importância e o significado de certas coisas.

O que eu tentei aqui, sem pretensões de análise profunda e em geito de breve inventariação, foi destacar o fundamental contributo que a ilha do Príncipe deu e continua a dar para o engrandecimento da cultura nacional. Daí essa minha singela homenagem, testemunho de gratidão a estes nomes queridos que aumentaram o nosso património colectivo e que por isso devem ser recordados e honrados por todos nós.

É-me muito grata a presença nesta sala de familiares dos meus homenageados, bem como de algumas das pessoas a quem rendi tributo, pelo que gostaria de vos pedir, em geito de conclusão, uma grande salva de palmas por essa presença que muito me comove e me honra.

NOTA: No debate da palestra foram evocados outros nomes e grupos, a saber: Ana Fernandes Silva e os agrupamentos musicais “Arranca Solo”; “Os Repteis” e “Os Diabos do Ritmo”.