Aires Bruzaca de Menezes
Mestre
em Desenvolvimento e Cooperação Internacional
Extracto da Tese sobre Implicações
Socio-económicas da Exploração
do Petróleo em São Tomé e Príncipe
defendido no Instituto Superior de economia e Gestão
Muitos
países cujas economias dependem da exportação
de recursos naturais contam com uma elevada percentagem
de apenas um produto nas suas receitas de exportação.
Este factor acaba por se reflectir de forma muito
pouco saudável tanto na composição
do Produto Interno Bruto (PIB) como na composição
das receitas públicas.
“No caso
do petróleo, estas taxas chegam a atingir
até 90% da exportação em países
como Angola ou Nigéria. Na Nigéria
o petróleo constitui mais de 90% das exportações,
25% do Produto Interno Bruto (PIB) e mais de 80%
das receitas públicas” (Montenegro et al,
1994:1).
“Em Angola,
o sector petrolífero esteve na origem de
92% das receitas de exportação em
1992, representando aproximadamente 50% da produção
total de riqueza no país” (Nordás,
1999:18).
A forte
dependência desses países perante o
petróleo traz consigo sérias implicações
na gestão macroeconómica. Como demonstrou
um estudo do Banco Mundial sobre a Nigéria,
a “Macroeconomic Risk Management - Issues and Options”,
“um aumento de 1 dólar, no preço de
petróleo no início dos anos 90 permitiu
aumentar em cerca de 650 milhões de dólares
(2% do PIB) das receitas em divisas estrangeiras
de Nigéria, e 320 milhões de dólares
por ano das receitas públicas” (Montenegro
et al, 1994:1).
Este
facto, que é em grande medida provocado pela
flutuação de preços desse produto
no mercado internacional, teria, em idênticos
termos proporcionais, um efeito de diminuição
de renda (efeito contrário), ou seja, a Nigéria
teria perdido os montantes supracitados se, em vez
de aumento, tivesse verificado uma diminuição
de 1 dólar no preço do petróleo
no período mencionado.
Assim
sendo, pode-se deduzir que as relações
macroeconómicas estabelecidas a partir dos
rendimentos de exploração de petróleo,
podem facilmente se envolver numa teia complexa
de incertezas, imprevisibilidades e instabilidades,
com consequências muito negativas para os
sistemas económicos inerentes.
Neste
contexto, torna-se imprescindível a necessidade
de estabelecer mecanismos conducentes a equilíbrios
macroeconómicos, que podem ser feitos através
de estímulos à contenção
do déficit e equilíbrio fiscal, “criando
para o efeito uma forte restrição
orçamental, ou seja, impondo limites institucionais
ao surgimento de déficit público”
(Mendes, 1999:1).
Como
não podia deixar de ser, é bastante
saudável o impacto positivo de um regime
fiscal estável sobre as variáveis
macroeconómicas, como o saldo da balança
de pagamentos, taxas de inflação,
crescimento e emprego. Como já deixamos antever,
a imposição de forte restrição
orçamental acaba por estimular a aplicação
eficiente dos recursos públicos e criar uma
situação favorável à
estabilidade macro-económica.
Além
do mais, é imprescindível a utilização
de instrumentos que permitam na medida do possível,
reduzir as vulnerabilidades a crises externas a
que as economias baseadas em recursos petrolíferos
estão expostas, devido às características
próprias dessa fonte de recursos que é,
em si, propiciadora de disfuncionamentos e instabilidades
macro-económicas.
Tem-se
aconselhado, para o efeito, neste complexo mundo
de negócio do petróleo, a utilização
de determinados instrumentos de cobertura de riscos
que permitem, assim, reduzir tais vulnerabilidades
perante as flutuações da moeda, taxas
de juro e preços das mercadorias, transferindo
estes riscos para outros agentes mais aptos para
os suportar. “Tais instrumentos de cobertura de
riscos podem permitir a uma determinada economia
prever os rendimentos a obter com os produtos petrolíferos,
por exemplo, para os próximos tempos, mas
não conduz à redução
da instabilidade das receitas, na medida em que
os preços desses produtos também são
instáveis” (Montenegro et al, 1994:2).
Quando
não se toma em consideração
a utilização desses instrumentos,
pode-se colocar essas economias perante dificuldades
de carácter macro-económica propícias
a um ambiente de:
(i) desequilíbrios
fiscais, monetários e inflação;
(ii)
apreciação das taxas de câmbio
com impactos extremamente negativos nos sectores
tradicionais (agricultura, pescas e outros);
(iii)
reduzidos investimentos privados;
(iv)
critérios pouco eficientes na selecção
de projectos públicos;
(v) fuga
de capitais privados, etc.
Para
o controlo da instabilidade tem-se admitido a possibilidade
de um outro instrumento. Este, consiste na criação
do fundo de estabilização de receitas
petrolíferas, que intervirá em complemento
dos instrumentos de cobertura de riscos.
Numa
situação de inexistência de
mecanismos de estabilização e de instrumentos
de cobertura de risco, uma queda dos preços
e, concomitantemente, queda de receitas, dificilmente
será contrabalançada com uma redução
de despesas. Este facto provoca automaticamente
desequilíbrios fiscais, assim como, a inflação.
Mas é
preciso sublinhar, ainda, que o nível de
endividamento em muitas economias petrolíferas
é bastante alto (em muitos casos avaliado
em mais de 100% dos seus PIB), e, além de
mais, calculado em várias moedas. Como certas
taxas de juro não são fixas, a economia
acaba por ser muito sensível à variação
das taxas de câmbio e de juro.
Estes
movimentos explicam, em parte, o aumento rápido
do peso da dívida externa em países
de economia petrolífera. O resultado de tudo
isso é um aumento substancial de desequilíbrios
externos e colapso dos sectores tradicionais de
economia.
Quando
as receitas de exportação de petróleo
são canalizadas e gastas na economia interna
e predominantemente para o aumento dos preços
de produtos não exportáveis e em salários,
pode-se acabar por favorecer os sectores não
exportadores, tais como os serviços e a construção,
afectando gravemente outros sectores de exportação
não petrolíferos, ficando-se cada
vez mais dependente da economia de petróleo.
Aliado
a isso está, também, a problemática
dos investimentos privados. Se os rendimentos do
petróleo são prioritariamente canalizados
para despesas públicas improdutivas, em termos
lógicos, isso faz cair o volume de investimentos
privados. Este facto pode tomar ainda contornos
mais gravosos devido às mudanças bruscas
que afectam os rendimentos de petróleo, consubstanciadas
na volatilidade dos preços.
Numa
situação de permanente incerteza perante
os preços do petróleo, os investidores
privados não arriscam a investir seriamente
nos sectores não petrolíferos, na
medida em que a instabilidade aumenta o risco de
empreendimento. Isso faz com que o desenvolvimento
da economia assuma um ritmo de “leve-leve”[1] como
se diz na gíria sãotomense. Em suma,
a instabilidade dos preços relativos constitui
um dos principais factores limitativos de investimentos
privados nos países em desenvolvimento.
Em plena
euforia de aumento de preços e recepção
de avultadas receitas de petróleo, a tendência
natural é para o financiamento de grandes
programas de despesas públicas. Entre estas
despesas podem ser encontradas as realizadas com
os chamados “elefantes brancos”. Regra geral, são
grandes projectos de infra-estruturas seleccionados
sem qualquer critério, sem estudos de viabilidade,
de rentabilidade duvidosa e condenados a morrer
logo que os preços de petróleo deixam
de ser favoráveis. Mesmo sabendo que estes
projectos não trazem mais valia ao crescimento
económico, eles são materializados
simplesmente por razões políticas
e também por interesses, na maioria de casos,
não confessáveis.
É
de se frisar, finalmente, que a instabilidade de
preços está também na base
da fuga de capitais que normalmente tem lugar nas
economias petrolíferas. Perante os receios
que as receitas do petróleo baixem, os déficit
orçamentais, não sendo sustentáveis,
acabam por arrastar à inflação
e elevar futuras taxas de câmbios; esta situação
dá lugar a uma nítida fuga de capitais.
Normalmente, tudo isso está associado a uma
titânica luta política pelo controlo
de poder, o que acaba também por acelerar
a fuga de capitais.
Segundo
Montenegro et al, (1994), pode-se controlar a vulnerabilidade
externa provocada pelo petróleo através
dos seguintes métodos:
(i) “prevenção
dos riscos, através da venda das reservas
petrolíferas e/ou redução da
produção;
(ii)
criação do fundo de estabilização
de receitas petrolíferas;
(iii)
transferência dos riscos para o exterior,
utilizando os mecanismos de cobertura de riscos
e de mercado de crédito;
(iv)
transferência do risco para o sector privado”
(Montenegro et al, 1994:6 a 8).
Uma combinação
entre estes diferentes métodos não
está fora de causa. A conversão das
reservas petrolíferas em activos financeiros
ou em activos fixos constitui (venda de reservas),
uma forma inteligente de prevenção
de riscos contra os choques petrolíferos.
Tendo
em conta o facto da venda de petróleo estar
dependente de vários constrangimentos económicos,
políticos e institucionais, devido às
incertezas económicas e à instabilidade
de preços, os choques externos podem também
ser controlados através da redução
da produção, na medida em que as taxas
de rendimento dos activos que podem ser obtidos
com as receitas petrolíferas a longo prazo
podem exceder a taxa esperada do aumento do preço
real do petróleo, o que implica que a produção
de petróleo deverá ser limitada às
reais possibilidades técnicas de extracção.
Será
pois mais vantajoso guardar as reservas de petróleo
não exploradas, quando os preços estão
na baixa, e vendê-las somente quando os preços
estão na alta.
No que
concerne à criação do fundo
de estabilização, trata-se de uma
regra básica de condução de
gestão das despesas governamentais. Poupando
os recursos em certos períodos pode-se minimizar
a necessidade de proceder a cortes de despesas em
outros períodos. Nestes termos, o fundo de
estabilização ajuda a estabilizar
os preços relativos e as taxas de câmbio
reais. Se a volatilidade de preços de petróleo
permanecer, pode-se através de um fundo de
estabilização bem concebido, mais
facilmente proceder a ajustamentos de despesas,
face às altas e baixas dos preços.
Isso pode evitar a necessidade de cortes brutais
e traumatizantes de despesas perante os choques
externos negativos.
Em caso
dos choques serem positivos, pode-se aumentar gradualmente
as despesas de forma prudente e razoável,
com vista ao relançamento da própria
capacidade de programação, de execução
e de gestão económica do país
.
A aquisição
de garantias contra a flutuação de
preços no mercado internacional de cobertura
de risco constitui uma forma de transferir os riscos
inerentes aos choques petrolíferos para o
exterior do país. “No entretanto, a complexidade
na gestão de cobertura de risco aliada à
falta de informação, à insuficiência
na apreciação dos benefícios
e, sobretudo, à ausência de um quadro
institucional e de política de governação
adequadas, têm feito com que muitas economias
petrolíferas não utilizem este mecanismo
para redução do risco” (Montenegro
et al, 1994:7).
Existe
ainda uma outra razão que explica a não
utilização deste mecanismo. Esta razão
prende-se com o facto de “o sistema de mecanismos
de cobertura de risco ser muito limitado, fazendo
com que o acesso de economias em desenvolvimento
a esses mercados financeiros internacionais sejam
bastante reduzido. Um outro factor que vem ainda
agravar esta situação é a falta
de credibilidade dessas economias no mercado internacional”
(Montenegro et al, 1994:8).
Ainda
segundo Montenegro et al (1994), “o sector privado
pode também contribuir na gestão da
dependência externa do petróleo. Isso
implica a transferência da propriedade do
sector petrolífero para o sector privado
através de arranjos financeiros alternativos,
privatizando a industria petrolífera ou modificando
os contratos de produção passados
às companhias petrolíferas” (Montenegro
et al, 1994:8).
No entretanto,
a melhor estratégia para gerir a dependência
externa do petróleo consiste na combinação
de mecanismos como o fundo de estabilização
de receitas petrolíferas com mecanismos de
transferência de riscos, tais como mecanismos
de cobertura de riscos. Estas duas opções
geralmente são complementares. Alargar a
utilização de uma encurta a utilização
da outra, e cada um dos meios para gerir o risco
pode ser utilizado para atacar um aspecto diferente
da dependência externa.
A utilização
de mecanismos como os fundos de estabilização
das receitas petrolíferas pode fazer crescer
a credibilidade externa do país e melhorar
o seu acesso aos mercados financeiros, incluindo
os mercados dos instrumentos de cobertura de riscos.
Uma utilização
eficiente e profunda de mercados financeiros pode
fornecer, em retorno, recursos adicionais para a
diversificação da economia. Isso pode
fazer crescer a credibilidade externa da economia,
alargar a sua capacidade de empréstimo e
reduzir os custos de mercado dos instrumentos de
cobertura de risco.
Na elaboração
de programas de gestão da dependência
externa e dos seus custos é imprescindível
atacar a incerteza e a instabilidade do preço
de petróleo. Os mecanismos de cobertura de
risco constituem o ideal para a redução
das adversidades perante a incerteza, e o fundo
de estabilização pode reduzir a dependência
perante a instabilidade do preço de petróleo.
A venda antecipada de petróleo de um ano
para o outro deve permitir a antecipação
do preço que se vai receber no ano seguinte.
Mas isso, só por si, não reduz as
incertezas financeiras inerentes a esse processo.
Este tipo de instabilidade só pode ser controlado
através de fundos de estabilização.
As economias
dependentes do petróleo encontram muitas
dificuldades na obtenção de financiamentos
no mercado internacional e são afastadas
das facilidades de empréstimo como, por exemplo,
as facilidades de financiamento de fundos compensatórios
do FMI e do STABEX da Comunidade Europeia. Elas
deparam com essas dificuldades precisamente por
serem produtoras de petróleo. Daí
que nada melhor que a criação de um
fundo de estabilização das receitas
de petróleo como forma de atacar a instabilidade
do seu preço.
Controlar
a vulnerabilidade perante o preço do petróleo
e a dependência perante as taxas de câmbio
e de juros, constitui um factor importante no combate
aos sérios problemas da política macro-económica.
Mas a
gestão macro-económica tem que ser
feita no estrito cumprimento de duas condições
básicas:
1. respeito
pelas regras macro-económicas universalmente
aceites;
2. adaptação
criteriosa as realidades socio-económicas
do país alvo.
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[1] Leve-leve:
gíria sãotomense que significa não
há pressa, tudo nas calmas.